Língua

antes de domadas por letras

as palavras soam soltas, livres

dos mil grilhões

e de ordenamento sintático:

grasnados selvagens que são

como brotadas do chão

do barro quente da terra

útero fundo da mãe

/^\

sem saber de onomatopeias

nenéns já imitam

sons de animais

de mamíferos mais velhos

vai e vem vocálico

de ânsias de mundo -

os ouvidos atentos

da viscosidade dos sons

ao desmanche deles no ar

/^\

é que o silêncio

é como rio largo

no qual passam peixes

e são logos levados

/^\

mas chega o dia

em que seres aquáticos

tornam-se anfíbios

vão-se acostumando às margens

já não gemem sob a gravidade

viram palavras andantes

criam complexas sociedades

panteões de deuses

governantes, segregações,

regras de etiqueta

contagem do tempo

engenhocas mirabolantes

tudo para muito pouco:

quase sempre aquilo

que se deseja exprimir

é o mesmíssimo mesmo

que já pedia o neném

/^\

e é por isso que

de tanto em tanto tempo

palavras pedem e precisam

tirar férias remuneradas

também sendo filhas de deus

retornar ao rio, mergulhar

boiar na correnteza

passar verão à beira d’água

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